Aristófanes e suas definições

02/03/2025 00:01

 

“Misturado com as vulgaridades usuais e as blasfêmias ocasionais, não menos do que com a quantidade considerável de confusão da própria mente de Aristófanes (dramaturgo grego contemporâneo de Sócrates), há muito em suas comédias que exemplifica a liberdade de expressão não adulterada. A partir de suas comédias, poderíamos até construir um dicionário de novos significados, talvez como antecipações das próprias definições e sinônimos de Diógenes (filósofo cínico grego), mais verdadeiros e realistas do que aqueles encontrados na fala comum.

O que é um jurado? Uma vespa ansiosa para picar suas vítimas. O que é um general? Um condutor de burros que leva homens à morte. O que é guerra? Um jogo sem sentido criado por políticos para seus próprios fins. O que é paz? Pacificação por meio do extermínio. O que é um político? Um canalha inescrupuloso que vive apenas para tirar vantagem dos outros. O que é um teólogo? Outro canalha que mistifica as pessoas com coisas que ninguém entende. O que é democracia? Uma forma de oligarquia na qual a escória da sociedade assume o controle. O que é o governo? Um grupo de tolos espertos que tomaram o poder para promover sua própria vantagem e abusar do povo, que são tolos maiores. O que é um filósofo? Um louco que vive suspenso em uma cesta suspensa, falando bobagens  sem parar sobre isso e aquilo, e só consegue desorientar aqueles que o ouvem. O que é um sofista? Outro louco que emprega a linguagem para manipular as pessoas e ficar rico. O que é um cientista? Um homem demente caracterizado pela arrogância, que passa seu tempo pensando nas estrelas e no formato da Terra. O que é amor? Normalmente nada além de um desejo sexual camuflado. O que é educação? O processo pelo qual os jovens são doutrinados nos costumes dos velhos e pelo qual eles se tornam efeminados e preguiçosos.

Esta lista poderia ser estendida para um comprimento muito maior porque as comédias de Aristófanes fornecem inúmeros novos significados para palavras comuns. Parece que ele estava empenhado em refazer a linguagem de seu tempo, desmascarando os enganos e estourando as bolhas de ilusão nas quais, do seu ponto de vista, a maioria das pessoas vive.”

 

Luis E. Navia, filósofo e professor estadunidense em Diogenes, the Cynic: The war against the world (Diogenes, o Cínico: A guerra contra o mundo)